3.7 Carga Ativa em Espelho

3.7.1 Introdução

O principal desafio proposto para realização do amplificador diferencial desde o início desse capítulo foi: ter dois amplificadores simples iguais que formassem uma saída proporcional à diferença entre as entradas de cada um deles, eliminando o ruído (sinal em modo comum) no processo de amplificação. Vimos algumas alternativas que nos ajudassem a melhorar a CMRR e também reduzir as dimensões físicas do circuito18. O que nos falta agora é arranjar uma forma de manter o circuito equilibrado, transistores amplificadores e de carga iguais entre si, porém fornecendo a saída com apenas uma única conexão.

Essa característica é essencial para que possamos acoplar outros estágios simples, formando o que chamaremos de amplificadores multiestágio. Os amplificadores multiestágio são o assunto do próximo capítulo. O circuito integrado comercial com amplificadores multiestágio mais conhecido é o amplificador operacional. Isto é, para que possamos chegar ao circuito de um amplificador diferencial, precisamos que o amplificador diferencial, circuito de entrada, possa se conectar com amplificadores simples, que têm apenas uma entrada.

A modificação do circuito da seção anterior para que essa característica seja viabilizada pode ser vista nas Figuras 3.8 e 3.9 nas suas versões NMOS e PMOS, respectivamente.

Amplificador diferencial NMOS com carga ativa em espelho.

Figura 3.8: Amplificador diferencial NMOS com carga ativa em espelho.

Amplificador diferencial PMOS com carga ativa em espelho.

Figura 3.9: Amplificador diferencial PMOS com carga ativa em espelho.

Existe uma diferença entre as tensões disponíveis para ambos os amplificadores: VDD e terra, para a versão NMOS, e VDD e VSS para a versão PMOS. Essa diferença é proposital para mostrar que há possibilidades diversas para a elaboração desse amplificador, tudo dependendo do objetivo de uso desse amplificador e, de forma direta, das tensões disponíveis no sistema em que esse amplificador será inserido.

A grande diferença aqui é que teremos a carga ativa (que nos ajuda com o tamanho físico do dispositivo) conectada em espelho de corrente. A carga ativa em espelho nos ajuda a “transportar a corrente” da entrada 1, ou não-inversora, para a entrada 2, inversora, possibilitando que as duas correntes geradas pelas tensões de entrada possam produzir a tensão de saída na impedância de saída, presente no dreno de M2 e M4.

Importante observar que o espelho de carga ativa também serve para manter as correntes de polarização o mais próximo da igualdade possível, tornando:

  • IDS1=IDS2;
  • gm1=gm2 e gm3=gm4;
  • ro1=ro2 e ro3=ro4.

Sim, haverá desbalanço entre a corrente id1 de referência, no dreno de M1, e a corrente id1 espelhada no dreno de M2 pois vo poderá flutuar numa tensão diferente de VDD|VGS3|.

Contudo o amplificador diferencial com carga ativa em espelho ainda é uma solução muito adequada para a proposta inicial:

  • Formada apenas por trasistores, o que leva a um consumo de área de chip menor que as versões passivas;

  • Usa um espelho de corrente como carga ativa, possibilitando a saída estar disponível em apenas 1 (um) nó;

  • Usa uma fonte de corrente de polarização que permite uma elevação da CMRR, sendo o ganho em modo comum menor que o ganho diferencial.

Os detalhes da operação do circuito concernentes aos modos de operação serão abordados nas próximas seções.

3.7.2 Análise em Modo Diferencial

O modo diferencial, embora esteja explicitado nos circuitos anteriores de forma mais genérica, seja na Figura 3.8 ou na Figura 3.9, será aqui detalhado suficientemente para que compreendamos a sua operação. Podemos dizer que há essa apresentação pelo fato de id1 e id2 terem os seus sentidos opostos, tal como foi mostrado na Seção 3.6.1. Com os amplificadores perfeitamente equilibrados, a tensão diferencial se divide igualmente entre M1 e M2, causando a diferença de sinais das correntes, mantendo o seu módulo igual.

O que precisa ficar explicitado aqui é como essas correntes interagem no nó vo de saída. Para iniciarmos a análise, repetiremos a Figura 1.51, com o modelo de pequenos sinais do MOSFET para baixas frequências.

Modelo de pequenos sinais de MOSFET para baixas frequências.

Figura 3.10: Modelo de pequenos sinais de MOSFET para baixas frequências.

Replicando esse modelo para os quatro transistores, podemos chegar ao circuito da Figura 3.11. Para ver a figura em tamanho maior, clique aqui. As conexões entre dreno e fonte de M3 e entre as portas de M3 e M4 estão explicitadas na figura.

Modelo de pequenos sinais do Amp. Diferencial com carga ativa em modo diferencial.

Figura 3.11: Modelo de pequenos sinais do Amp. Diferencial com carga ativa em modo diferencial.

Tendo essa última figura como base, faremos algumas mudanças no circuito para simplificar a sua análise. Começaremos pela fonte de corrente de M3: a tensão que controla a fonte é a própria tensão nos terminais da fonte, vgs3, o que configura o comportamento de um resistor ôhmico. Logo, podemos substituir essa fonte por um resistor com resistência igual a 1gm3. Essa tensão vgs3 que é igual à vbs4 por força das ligações feitas.

E, para facilitar a análise do circuito também substituiremos as correntes das fontes dependentes de M1 e M2:

  • ig1 = gm1vgs1
  • ib1 = gmb1vbs1
  • ig2 = gm2vgs2
  • ib2 = gmb2vbs2

Essas mudanças estão expostas na Figura 3.12, a seguir. Para ver a figura em tamanho maior, clique aqui.

Modelo de pequenos sinais do Amp. Diferencial com carga ativa em modo diferencial - Simplificado.

Figura 3.12: Modelo de pequenos sinais do Amp. Diferencial com carga ativa em modo diferencial - Simplificado.

No que concerne aos transistores do circuito, no modo diferencial, nenhum deles sofrerá o efeito de corpo. Para M3 e M4, corpo e fonte estão no mesmo potencial. Sendo a tensão diferencial de entrada dividida igualmente entre M1 e M2 e também recorrendo às Equações (3.4) e (3.5), podemos dizer que:

  • vgs1 = vid2

  • vgs2 = vid2

A fonte de corrente gm4vgs3 fará o espelhamento de id1, mantendo o seu sentido em relação ao que está no modelo. A corrente id2 terá o seu sentido invertido ao do modelo já que vgs2<0. Esses são os sentidos que estão nas Figuras 3.8 e 3.9. Como já explicado anteriormente, sendo as correntes iguais em módulo, mas com sentidos contrários, então a corrente de sinal em RB será nula.

Fazendo-se a análise por partes, começamos com apenas o sinal vi1 ativo e vido, aterrado. Nesse caso, do transistor M2 restará apenas ro2 conectada entre vo e o terra de sinal, aparecendo em paralelo com ro4. Se a saída dependesse apenas de id1, então ela seria:

vo1 = gm4vgs3(ro2||ro4) = gm1vgs1(ro2||ro4) = 12gm1vid(ro2||ro4)

As igualdades se explicam pelo fato de que id1=gm1vgs1=gm4vgs3. Ou seja, Se M2 estiver completamente desligado, a tensão de saída é dependente apenas de vi1, cujo efeito se faz presente na saída através do espelho de corrente. Seguiremos com a análise com o caso contrário: M1 está desligado e M2 está ligado. Nesse caso, a fonte de corrente gm4vgs3 estará desligada, restando do transistor M4 apenas ro4 no circuito, conectado entre vo e o terra. Para o transistor M2 temos:

  • A fonte gm2vgs2 estará ativa pela entrada vi2;

  • A fonte gmb2vbs2 estará desativada, pois vs será terra de sinal (ver Seção 3.5);

  • A resistência de saída ro2 estará em paralelo com ro4, entre vo e o terra.

Consideradas essas observações, podemos escrever a saída em função da entrada vi2:

vo2 = gm2vgs2(ro2||ro4) = 12gm2vid(ro2||ro4)

Importante notar o sentido da corrente id2 que leva à saída com sinal positivo em relação a entrada vi2. Pelo teorema da superposição podemos escrever a expressão final para a saída em função de ambas as entradas:

vo = vo1+vo2 = 12gm1vid(ro2||ro4)+12gm2vid(ro2||ro4) = gm2vid(ro2||ro4)

Logo o ganho em modo diferencial ou apenas ganho diferencial é:

Ad = gm2(ro2||ro4)

3.7.3 Análise em Modo Comum

Para a entrada em modo comum, teremos:

  • vgs1 = vgs2 = vcm

Sendo as tensões porta-fonte iguais, em módulo e sinal, então também serão mantidos os sentidos das correntes das fontes dependentes. Também já foi analisado anteriormente: ambas as correntes se somarão em RB, levando a vs 0. Esse fato muda a condição do efeito de corpo para os transistores de entrada, estando as fontes dependentes ativas no caso do modo comum. Essa situação pode ser acompanhada na Figura 3.13, a seguir.

Modelo de pequenos sinais do Amp. Diferencial com carga ativa em modo comum.

Figura 3.13: Modelo de pequenos sinais do Amp. Diferencial com carga ativa em modo comum.

O fato de vs não ser mais o terra de sinal traz alguns desafios na análise do circuito, mas não intransponíveis. Seguiremos com a análise de forma paulatina, quase passo a passo. Primeiramente escreveremos as expressões gerais para id1, id2 e vs:

id1 = ig1+ib1+vd3vsro1

id2 = ig2+ib2+vovsro2

vs = RB(id1+id2)

A partir de M3 podemos escrever:

vd3 = id1(ro3||1gm3) = id1R1

No nó de saída, podemos escrever as duas expressões abaixo:

\begin{equation} i_{d_2}\ =\ g_{m_4}v_{d_3}+ i_{4}=\ g_{m_4}i_{d_1}R_1\ + i_{4} \tag{3.27} \end{equation}

\begin{equation} v_{o}\ =\ r_{o_4}i_{4}=\ g_{m_4}i_{d_1}R_1\ + i_{4}=\ (i_{d_2}- g_{m_4}R_1i_{d_1})r_{o_4} \tag{3.28} \end{equation}

Para simplificar as análises, trataremos os amplificadores como sendo iguais, de forma que:

  • g_{m_1}=\ g_{m_2}=\ {g_{m}}
  • g_{{mb}_1}=\ g_{{mb}_2}=\ g_{{m}_{b}}
  • r_{o_1}=\ r_{o_2}=\ {r_{o}}
  • g_{{m}_{T}}=\ {g_{m}}+ g_{{m}_{b}}

Trabalhando os termos da Equação (3.23):

\begin{align} i_{d_1}\ &= i_{g_1}+ i_{b_1}- \dfrac{R_1i_{d_1}}{{r_{o}}} - \dfrac{v_s}{{r_{o}}}\\ &= \dfrac{(i_{g_1}+i_{b_1}){r_{o}}-v_s}{{r_{o}}+R_1}\\ &= \dfrac{{g_{m}}v_{cm}{r_{o}}- {g_{m}}v_s{r_{o}}- g_{{m}_{b}}v_s{r_{o}}- v_s}{{r_{o}}+ R_1}\\ &= \dfrac{{g_{m}}{r_{o}}v_{cm}- (1 + g_{{m}_{T}}{r_{o}})v_s}{{r_{o}}+ R_1} \tag{3.29} \end{align}

AVISO!

Estamos em construção!

3.7.4 Impedâncias de Entrada e de Saída

3.7.5 Resposta em Frequência

3.7.6 Resumo da Carga em Espelho

3.7.7 Códigos para análise na frequência


  1. elementos passivos são muito grandes em circuitos integrados.↩︎