9.1 Percepções com base qualitativa

9.1.1 Questões sociais

As/os estudantes demonstraram uma percepção mais aguçada em relação a questões sociais ao longo dos encontros realizados no ano. Assim, atas das reuniões semanais contendo impressões da equipe e paráfrases do que foi dito pelas/os alunas/os evidenciam essa habilidade adquirida. É importante notar que as/os estudantes desconheciam ou tinham pouca ciência acerca da atuação decisiva das mulheres em diversos campos de atuação, o que destituiu a ideia fabricada pela sociedade patriarcal que marca o local feminino em áreas estritamente ligadas ao cuidado ou ainda a concepção de mulheres como donas de casa, mães, esposas… Por isso, ao serem apresentadas a mulheres (chamadas de extraordinárias) atuando em diversas áreas, em diferentes contextos sociais, geográficos, culturais e de época, o construto do papel da mulher na sociedade passou a ser questionado e deslocado. Foi imprescindível para garotas perceberem que elas podem assumir o papel de protagonistas nas mais diversas áreas, inclusive destituindo o que imaginavam para si, reproduzindo os papéis desenvolvidos por familiares, especialmente mães e avós, sem muitas perspectivas de subversão da realidade. É importante salientar que as garotas partícipes do projeto são de comunidades em condição de vulnerabilidade social, nas quais, as mulheres ainda são vistas sob a égide do patriarcado.
Em um encontro que tratou do esforço para garantir a acessibilidade a deficientes visuais, foi apresentada a educadora e ativista Dorina Norwill, as/os estudantes foram além do escopo das perguntas orientadoras. Eles pensaram a acessibilidade de uma escola para além da estrutura física e chamaram a atenção para a importância de “que elas (deficientes visuais) socializem e não sejam excluídas e que deviam frequentar a mesma escola.” Uma das estudantes acrescentou “que se deve evitar o bullying.” Em outro encontro, tratando da adolescente alemã, vítima do holocausto, Anne Frank e o diário que ela escreveu relatando suas experiências em meio à guerra os estudantes foram capazes de associar as ameaças do passado com os problemas do presente. Apesar de Anne Frank ter sido uma menina perseguida na Europa devido à sua etnia e cultura judaica, as/os estudantes chamaram a atenção para pessoas podem ser perseguidas por “seguir uma religião,” por ser homossexual ou por não gostar de uma opinião política, por exemplo. As/os estudantes também manifestaram perceber como a representação dos negros pode reforçar estereótipos. Em um encontro (24/04) sobre Ruth de Souza, atriz negra e ativista, uma das estudantes criticou um papel que a atriz assumiu representando uma escrava. A estudante afirmou que “papéis como esse dão a ideia de que todo negro é escravo.” Uma estudante também demonstrou perceber de maneira intuitiva parte do conceito de interseccionalidade. Ao ser indagada sobre diferenças como o machismo incide sobre mulheres negras e brancas ela indicou que “mulheres negras sofrem machismo e racismo ao mesmo tempo.” Diversas estudantes relataram experiências de racismo em primeira mão, seja como vítimas ou testemunhas, adotando uma postura empática, algumas até buscaram trazer os agressores à luz do conhecimento. O destilado dos vários aprendizados das/os estudantes foram os glossários coletivos. Esses documentos apresentam definições de palavras importantes para entender as questões sociais, raciais e de gênero. Tal documento foi uma construção coletiva baseado nas dúvidas e na pesquisa prévia realizada pelas estudantes. A elaboração foi feita em uma plataforma visível para todos. Algumas palavras definidas pelas/os estudantes foram: branquitude, matriz de dominação, representatividade e homem universal.

9.1.2 Letramento científico e em dados

Os encontros das equipes de Ciência de Dados, do Site e Produção do Conhecimento Científico foram estruturados de forma que os objetivos fossem explícitos nos relatos das equipes em ata. Esses documentos indicam que objetivos foram considerados pela equipe como alcançados com sucesso.

Em termos de letramento científico, foi relatado que as/os estudantes:

  • Demonstraram interesse na discussão sobre onde, como e quem faz ciência;
  • Aqueles que tiveram experiência anterior com projetos científicos se empolgaram em compartilhar sua experiência com os colegas;
  • Participaram de atividades de formulação de problemas, levantamento de hipóteses de solução e estratégias para testá-las;
  • Discutiram métodos (entrevistas, observações, etc.) de coleta de dados e ferramentas (livros, balanças, etc.) para tal. Bem como estabeleceram um cronograma de ações.

Em termos de letramento em dados, foi relatado que as/os estudantes:

  • Tiveram facilidade e curiosidade para identificar e analisar os elementos de mapas e gráficos apresentados sobre a cidade de Salvador;
  • Puderam perceber tempo, espaço e transformação de um local da cidade através da apresentação de fotos;
  • Interpretaram com facilidade e discutiram coletivamente elementos como o padrão de cores dos mapas, a importância da legenda, os diferentes tamanhos e cores das regiões e dos círculos nos mapas;
  • Confrontaram opiniões prévias que tinham quanto à proporção de estudantes matriculados do sexo feminino e masculino com dados coletados e foram capazes de incorporar as informações novas às suas noções;
  • Foram capazes de sugerir mudanças relevantes para aprimorar os gráficos de matrículas apresentados como: padrão das cores, escala mais exata, aumento da fonte da legenda, uso das tabelas, etc.;
  • Algumas/ns estudantes demonstraram interesse, discutiram e construíram análises sobre os sistemas de notificação de infrações de trânsitos de Salvador e perceberam a mudança de comportamento do número de ocorrências desses eventos por meio de gráficos (barras e boxplot), bem como os recortes temporais que os colocam frente ao momento da pandemia;
  • A compreensão da importância do turismo gerou curiosidade sobre estratégias de identificação de padrões como a exploração da intensidade de cores e reordenação de informações do domínio temporal de estrutura linear para o modelo de blocos periódicos. Assim, eles reconheceram os meses do ano que há mais ocupação da rede hoteleira e reconheceram a quebra de padrão como os eventos especiais como Copa do Mundo e pandemia;
  • Aprenderam o significado de medidas centrais (média, moda, etc.) e de dispersão (amplitude, desvio padrão, etc.) em um contexto mais próximo (idade dos colegas);
  • Foram expostos aos conceitos de população, amostra, intervalo de confiança, aleatoriedade e margem de erro através do tema de pesquisas eleitorais. Os conceitos de inferência estatística e intervalo de confiança foram reforçados através de uma atividade lúdica;
  • As manifestações de algumas/ns estudantes revelam indícios que houve o processo introdutório do letramento em dados, as perguntas geradas por informações anteriormente não citadas nos encontros, a abordagem de problemas com base em evidências são algumas das formas percebidas.

As/os estudantes também realizaram tarefas de casa que envolviam representação gráfica, cálculo de medidas e reflexão sobre dados. Elas/es passaram a reconhecer a importância das grades em um gráfico, mas mantendo uma parcimônia para não tornar a figura cheia (ver Figura 19, superior esquerda), bem como a importância da legibilidade dos eixos e a escolha de um padrão de cores para informações que correspondem a mesma categoria. Nessa atividade, surgiram diferentes métodos de representação da informação; a Figura 9.1 (superior direita) mostra um bom exemplo. Nessa figura também se destaca a simplicidade e elegância da representação, bem como o uso inteligente de cores no título do gráfico como maneira de comunicar facilmente o tema apresentado. Em outra atividade, as/os estudantes calcularam medidas centrais das idades de colegas. Um estudante incluiu intuitivamente em sua resolução um gráfico de pontos ou dot-plot para identificar a moda (ver Figura 9.1, inferior).

Gráficos produzidos pelas/os estudantes.

Figura 9.1: Gráficos produzidos pelas/os estudantes.

Em essência, as/os estudantes puderam começar a assumir propriedade de conhecimentos e habilidades em letramento científico e em dados. A teoria foi apresentada em conjunto com atividades práticas para reforçar os conceitos. Apesar de suas dificuldades com a matemática, as/os estudantes foram capazes de compreender os conceitos por trás de fórmulas. Elas/es demonstraram facilidade de entender, discutir e produzir representações gráficas comuns. Além disso, foram capazes de incorporar informações recuperadas de dados (fotos e gráficos) em discussões.

9.1.3 Ciência de dados como instrumento

Apesar das/os estudantes terem amadurecido sua capacidade de lidar com dados, sua percepção da Ciência de dados como um instrumento não foi instantânea. Em um dos encontros em abril, um dos temas discutidos foi como a Ciência de dados estava sendo utilizada para trazer à luz questões sobre Anne Frank. As estudantes demonstraram ter alguma noção sobre o poder elucidativo dos dados isto é “para encontrar as pistas é preciso dados.” Todavia uma delas indicou que ainda não havia percebido mais concretamente esse uso até aquele encontro. Respostas dessa natureza se repetiram em outros encontros seguintes quando um elo entre a Ciência de dados ou a Inteligência artificial era estabelecida com elementos da vida cotidiana (em maior ou menor grau). Mais tardiamente, em setembro foi proposta uma atividade em que as/os alunos deveriam indicar “Como a ciência de dados pode ajudar a melhorar a sua cidade, seu bairro ou a sua comunidade?” Algumas/uns estudantes elencaram problemas de segurança, saúde, educação, divulgação científica e outros temas, bem como chamaram a atenção para a importância de dados para que entes do Estado e do setor privado possam tomar “decisões mais acertadas.” Outras/os estudantes foram além e esboçaram uma cadeia de informações a medir com um propósito claro. Uma estudante propôs coletar dados sobre os locais onde há maior escoamento de esgoto e onde ele não é encanado para em seguida enviar equipes em tais locais. Um estudante sugeriu que, para lidar com os problemas de segurança em seu bairro, poderia coletar “quantas pessoas acordam cedo e ver os lugares onde elas passam para pôr câmeras ou iluminação.”

9.1.4 Novas perspectivas e habilidades socioemocionais

Uma das expectativas da equipe do Projeto era que as atividades afetassem a percepção dos estudantes de si mesmo e despertam novas habilidades socioemocionais neles.

Iniciativa

No encontro que tratava das dificuldades sofridas por deficientes visuais uma das estudantes sugeriu “fazer uma dinâmica com os colegas, com eles sem ver. Após isso, propor uma discussão.” Diante das informações apresentadas no encontro a estudante demonstrou iniciativa para multiplicar o que havia aprendido e fazer isso de maneira que promovesse empatia nos colegas.

Determinação

A prolongada quarentena afetou bastante as/os estudantes. Houve relatos ocasionais de desgaste devido à rotina muito ociosa. Todavia, a maioria dos estudantes perseveraram em diversas atividades. Em 16 encontros realizados de agosto a outubro apenas 4 dos 29 bolsistas tiveram quatro faltas não justificadas. Membros da equipe testemunham que as/os estudantes encaravam os encontros com boa expectativa. Em situações de desânimo das/os discentes, a equipe se esforçou para identificar tais situações fazendo um acompanhamento sistemático dessas/es estudantes, com diálogos individuais promovidos pela psicóloga ou psicopedagoga da equipe. Ainda em abril, quando discutiam sobre Anne Frank, as estudantes foram questionadas quanto ao interesse em escrever um diário, o que foi acolhido e houve interesse em registrar suas experiências em meio à pandemia. Ao fim de julho, uma oportunidade surgiu para que publicação de textos sobre o tema na Revista Jovens Cientistas da UFBA, a qual as estudantes aderiram.

Representatividade

No encontro que tratou sobre a atriz Ruth de Souza e sobre o espaço na mídia dado aos negros, as/os estudantes expressaram que negros tinham espaço limitado de atuação e participação em publicidade, ainda que percebessem certas mudanças recentes nesse cenário. O debate desembocou na questão da representatividade e, depois de elucidadas algumas dúvidas, uma estudante afirmou que tinha interesse na área de veterinária ou computação, mas não conhecia tantos profissionais negros nesses espaços. A estudante e uma colega citaram que o Projeto “tem mostrado outros personagens e que é importante mostrar.” Além disso elas indicaram que isso “gera uma mudança na forma de se ver e ser representada.”

Ser agente de transformação

Ainda no encontro sobre a atriz Ruth de Souza, os estudantes foram indagados sobre como discutiriam representatividade da mulher negra nos meios visuais e digitais caso tivessem um espaço para propagar suas ideias. As propostas foram diversas. Duas estudantes sugeriram pesquisa sobre mulheres negras no passado e presente e como é importante não “seguir um rótulo que são dados a elas,” bem como “mostrar exemplos de mulheres negras empoderadas.” Em outra oportunidade, em um encontro tratando sobre a sambista Dona Ivone Lara e sobre o sexismo dos papéis atribuídos a homens e mulheres na sociedade uma das estudantes relatou que suas amigas não entenderam a adesão dela ao Projeto pois “engenharia é coisa de homem.” Em uma outra conversa, as amigas passaram a ter opinião mais neutra, salientando que “cada um decide o que quer fazer.”

Essa percepção quanto ao futuro na área de tecnologia e como agende de transformação pode ser observado na entrevista sobre Mulheres na Tecnologia realizada em 13 de outubro para a TV Bahia, que teve a participação da estudante Ana Vitória de Jesus do Colégio Evaristo da Veiga (ver Figura 9.2), da estudante de graduação e bolsista do projeto, Ana Luísa Nogueira, da coordenação deste projeto e da coordenadora de produção criativa do Instituto Anísio Teixeira, Geisa Santos. Apesar de jovens, a mesma estudante Ana Luísa Nogueira e a pós-graduanda Julia Bijos, passaram a participar ou liderar ações de lideranças voltadas para a inclusão das mulheres na área de tecnologia e ciência de dados, respectivamente. Ana Luísa foi uma das 24 selecionadas, dentre 450 candidatas, para participar do Industriy4her e Julia participou da organização do congresso Women in Data Science 2020. Por fim, a Figura 9.3 exibe um conjunto de palavras-chave que representam as discussões abordadas pela equipe de Protagonismo nos dois anos do Projeto. Um glossário de novos vocábulos foi construído pelas estudantes sob orientação da equipe do projeto (ver Apêndice 12.7).

TV Bahia entrevistando a estudante Ana Vitória de Jesus para a reportagem Mulheres na Tecnologia (superior), participação da Ana Luísa Nogueira no Industry4her (inferior esquerda) e da Julia Bijos na organização do evento Women in Data Science 2020 (inferior direita).TV Bahia entrevistando a estudante Ana Vitória de Jesus para a reportagem Mulheres na Tecnologia (superior), participação da Ana Luísa Nogueira no Industry4her (inferior esquerda) e da Julia Bijos na organização do evento Women in Data Science 2020 (inferior direita).TV Bahia entrevistando a estudante Ana Vitória de Jesus para a reportagem Mulheres na Tecnologia (superior), participação da Ana Luísa Nogueira no Industry4her (inferior esquerda) e da Julia Bijos na organização do evento Women in Data Science 2020 (inferior direita).TV Bahia entrevistando a estudante Ana Vitória de Jesus para a reportagem Mulheres na Tecnologia (superior), participação da Ana Luísa Nogueira no Industry4her (inferior esquerda) e da Julia Bijos na organização do evento Women in Data Science 2020 (inferior direita).

Figura 9.2: TV Bahia entrevistando a estudante Ana Vitória de Jesus para a reportagem Mulheres na Tecnologia (superior), participação da Ana Luísa Nogueira no Industry4her (inferior esquerda) e da Julia Bijos na organização do evento Women in Data Science 2020 (inferior direita).

Nuvem de palavras (2019) e (2020) – Assuntos abordados pela equipe de Protagonismo.

Figura 9.3: Nuvem de palavras (2019) e (2020) – Assuntos abordados pela equipe de Protagonismo.